Sem receber, pediatras de UTI temem ser "descartados" pelo HMC
Os médicos da UTI pediátrica do Hospital Municipal de Cuiabá (HMC) denunciaram calote por parte da empresa que os contratou para prestar serviço na unidade. Eles também temem serem "descartados" pela administração.
A ala está fechada há quase um mês e a paralisação se deu após um atraso salarial de três meses.
Levamos um calote, porque a empresa já não nos responde mais, já não nos atende. E nós entregamos porque ela falou que não tinha mais condições de nos pagar, que dependia do repasse do Hospital, e o Hospital não tinha recursos para passar
Os médicos da unidade notificaram a contratante Hipermed sobre a possível paralisação em novembro de 2022 e depois, novamente, em dezembro, caso o montante da dívida não fosse quitado.
De acordo com um dos profissionais da unidade, que preferiu não se identificar, os atrasos eram recorrentes e a empresa chegou a ser notificada, com ameaças de paralisação, quatro vezes naquele mesmo ano.
“Levamos um calote, porque a empresa já não nos responde mais, já não nos atende. E nós entregamos porque ela falou que não tinha mais condições de nos pagar, que dependia do repasse do Hospital, e o Hospital não tinha recursos para passar”.
De acordo com uma nota encaminhada pelos médicos, “a empresa se defendeu atribuindo total responsabilidade pelos atrasos dos honorários médicos à Empresa Cuiabana de Saúde Pública (ECSP) por efetivar os repasses financeiros com meses de atraso”.
O profissional afirmou que a responsabilidade, para a categoria, recai sobre a administração do Hospital, uma vez que o repasses levariam mais 90 dias para serem feitos.
“O hospital recebe recurso federal todo mês, então vem o dinheiro lá de Brasília, que passa para a Prefeitura e a Prefeitura para o hospital, então não tem motivo para o hospital atrasar tanto tempo o pagamento dessas empresas”, afirmou o profissional.
Culpou intervenção
Conforme a denúncia, a administração, sob o atual comando do diretor-geral Paulo Rós, teria tentado atribuir a responsabilidade da paralisação à intervenção estadual na saúde pública de Cuiabá.
“O diretor do hospital está tentando jogar a culpa do fechamento da UTI para a equipe de intervenção”, afirmou o profissional.
“A prefeitura publicou uma nota totalmente mentirosa declarada pelo dr. Paulo, que falou que a culpa total pela paralisação dos médicos foi, em outras palavras, por incompetência da equipe de intervenção”.
Conforme o profissional a equipe de intervenção teria assumido e identificado que o hospital não tinha dinheiro em caixa para pagar os profissionais. “Por isso nós entregamos”, disse.
O diretor geral se manifestou por meio de nota e disse que “jamais” teria falado nesse sentido.
Segundo o documento, antes da intervenção a direção havia acordado com a empresa terceirizada a realização do pagamento entre os dias 05 a 10 de janeiro.
“Mês este que havia acabado de fechar (ou seja, com menos de 30 dias vencidos). Porém com a intervenção do governo na Secretaria de Saúde, o co-interventor assumiu o compromisso de pagar a referida empresa no dia 03 de janeiro de 2023”.
O acordo, portanto, não teria sido cumprido pelo co-interventor, Érico Pereira de Almeida, “fato este que ocasionou a interrupção dos serviços na UTI pediátrica”, diz trecho da nota.
Desrespeito
Um acordo verbal teria sido feito com a direção da unidade para que em janeiro a equipe fosse contratada sem a intermediação de qualquer empresa.
“Veio a intervenção e quando ele voltou deveria ter negociado, era isso o que nós espetávamos e tentávamos. E o que ele fez? Ele literalmente nos excluiu para não assumir a responsabilidade da dívida”, explicou.
O diretor do hospital está tentando jogar a culpa do fechamento da UTI para a equipe de intervenção
O profissional afirma que colegas procuraram a unidade na tarde desta quarta-feira (25) e não foram recebidos. “Não quis nos receber e começou a negociar com outra equipe”.
Caso novas contratações sejam feitas para assumir as atividades da UTI pediátrica do HMC, os antigos profissionais seriam “descartados” e, ainda, sem o vislumbre do pagamento dos salários em atraso.
“Se eu não tenho dinheiro para pagar você, como eu vou ter dinheiro para pagar outra pessoa? Além de desrespeito, é uma sensação de golpe. Foi feito um acordo que não foi cumprido, nos deixaram no prejuízo e ainda estão fechando com outra equipe”.
A empreitada de reestruturar uma nova equipe para assumir a função, no entanto, não seria das mais fáceis.
“Para assumir uma UTI pediátrica não é da noite para o dia, é uma equipe especializada, diferenciada”.
“Lógico que eles têm a responsabilidade de deixar a UTI aberta, mas ela não precisava ficar tanto tempo fechada se ele fosse um bom administrador, se fosse uma pessoa responsável que assume os erros”, declarou.
Tanto a Secretaria Municipal de Saúde quanto a empresa Hipermed foram procurados pela reportagem e se manifestarma por meio de nota.
Confira as notas a baixo:
Hipermed
O fato mencionado refere-se ao mês de dezembro de 2022, e estava pendente de pagamento aos profissionais médicos apenas o mês de novembro 2022, uma vez que, tendo em vista o momento conturbado que a saúde encontrava-se, a empresa acabou por não receber os repasses do Município de Cuiabá neste período de forma regular. Nesse período ocorreu inclusive a intervenção do Estado de Mato Grosso na gestão da saúde.
Vale ressaltar ainda que, todos os médicos foram informados através de diversos ofícios emitidos pela empresa de que o pagamento do mês de novembro ia ser quitado de imediato assim que o município nos fizesse os repasses, bem como, os profissionais ficaram cientificados das consequências cíveis, penais, e junto ao código de ética médica em caso de abandono dos plantões em que encontravam-se escalados.
Assim, os profissionais cientes de todos os fatos paralisaram com poucos dias de atraso do pagamento, e abandonaram os serviços de uma UTI Infantil.
A Hipermed tem como premissa maior o bem-estar de seus pacientes, e condena as ações praticadas pelos profissionais, conforme boletim registrado na época, bem como, todas as medidas cabíveis, e necessárias, foram tomadas junto ao conselho de classe médica.
A Empresa Cuiabana de Saúde Pública (ECSP)
A UTI Pediátrica do HMC foi fechada durante o período de intervenção do Governo na Secretaria Municipal de Saúde no dia 03/01, pois o antigo co-interventor, nomeado pelo Governo, no período da intervenção, não cumpriu com o acordado com a empresa terceirizada Hipermed, de efetuar o pagamento no dia 03/01. A Hipermed prestava serviços médicos especializados em medicina intensiva na UTI Pediátrica.
Tal fato, causou a interrupção dos serviços e prejudicou o atendimento das crianças hospitalizadas. Está é a primeira vez que aconteceu a interrupção dos serviços médicos no Hospital Municipal de Cuiabá. Para a gestão municipal e para a ECSP o fechamento da UTI pediátrica foi absurdo, e classificam como incompetência do interventor nomeado pelo Governo.
A Gestão Municipal e a ECSP informam que estão viabilizando a abertura da UTI pediátrica do HMC com quadro próprio de médicos especializados em medicina intensiva. Para a gestão municipal e para a ECSP, o gabinete de intervenção deveria ter respeitado os profissionais e a população.
FONTE MIDIA NEWS
