PC investiga hospital por cobrar "UTI fake" em Cuiabá
Apesar de não ter em sua estrutura nenhum leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e nem leitos de semi-UTI, o Hospital São Judas Tadeu, em Cuiabá, cobrou de pacientes com planos de saúde, várias diárias relativas ao “atendimento de médico intensivista em UTI Geral”. Tais cobranças foram feitas à Unimed Cuiabá, operadora do plano de saúde de algumas pessoas que ficaram internadas na unidade hospitalar, para tratamento contra a Covid-19.
Esses detalhes constam num relatório de utilização do plano de saúde de uma paciente que FOLHAMAX teve acesso. O documento faz parte de uma investigação da Polícia Civil no bojo de um inquérito policial instaurado em abril deste ano para apurar graves denúncias de maus-tratos, negligência e até suposto erro médico.
A responsável pelos trabalhos investigativos é a delegada Luciani Barros Pereira de Lima, da 2ª Delegacia de Cuiabá, no bairro Planalto. O médico Arnaldo Sérgio Patrício, sócio-diretor do São Judas Tadeu, afirmou numa entrevista publicada em 18 de abril deste ano pelo jornal A Gazeta que o hospital nunca teve UTI e sim por um período improvisado, teve uma Unidade de Estabilização.
Segundo ele, naquele setor eram realizados procedimentos similares aos de leitos intensivos, como a intubação, por exemplo, para que o paciente tivesse condições de ser transferido, de forma segura e com preservação da vida. A reportagem também foi anexada ao inquérito policial que ainda não tem prazo de ser concluído.
Conforme apurado por FOLHAMAX, informações já coletadas no inquérito mostram que o Hospital São Judas Tadeu foi homologado como sendo uma unidade com leitos de UTI e descumpre regramento do RDC 7, ou seja, a Resolução nº 7 do Ministério da Saúde, publicada em 25 de fevereiro de 2010. O documento dispõe sobre os requisitos mínimos para funcionamento de Unidades de Terapia Intensiva e estipula a quantidade mínima de cada profissional de saúde (enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos e outros profissionais) com base no número de leitos de UTIs disponíveis.
Um dos elementos do inquérito que reforçam essa tese de descumprimento da Resolução editada pela Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é o extrato de utilização da Unimed, onde o hospital cobra diárias de UTI, visitação de medico intensivista, visitação de medico infectologista, visitação de fisioterapeuta intensivista. Os atendimentos foram realizados entre os dias 24 de março e 2 de abril deste ano.
O extrato foi juntado ao inquérito pelo advogado de uma das pacientes que denunciam a unidade por negligência e maus-tratos. As investigações também apontam que os médicos contratados pelo Hospital São Judas Tadeu, são recém-formados, e sem especialidade médica, descumprindo ao que o Conselho Regional de Medicina (CRM) determina.
O documento do plano de saúde mostra que todos medicamentos ministrados no paciente são lançados no extrato de utilização e cobrados do plano de saúde. No extrato de lançamento Unimed em questão, é possível constatar que houve apenas um pedido de um único medicamento, feito pelo hospital sem discriminar qual remédio foi utilizado.
Na primeira semana de abril, depois que a técnica de enfermagem, Amanda Delmondes Benício, de 34 anos, denunciou irregularidades graves, negligência, maus-tratos a pacientes e um suposto erro médico, familiares de pacientes também procuraram veículos de comunicação e fizeram relatos semelhantes. Eles também registram boletim de ocorrência na Polícia Civil que continuam sendo investigados .
À época, em uma reportagem exibida no programa Olho Vivo na Cidade, da TV Cidade Verde, uma mulher que estava com o pai internado na unidade, disse que os documentos apresentavam divergência, sendo que em um deles, o pais estava registrado como do sexo feminino. Segundo ela, o pai tinha vários laudos diferentes no mesmo dia e foi intubado sem que ela fosse avisada.
Um laudo do dia 29 de março apontava que o paciente havia apresentado melhora. Uma outra mulher disse que os custos de internação eram absurdos.
Segundo ela, a diária na unidade é de R$ 10 mil, além disso os familiares ainda pagam medicamentos a parte e alimentação. Outra mulher disse que sua avó foi colocada numa sala que não era uma UTI.
No inquérito policial já foram ouvidos familiares de vários pacientes. O celular da técnica de enfermagem que trabalhou por 2 meses no Hospital São Judas Tadeu e trouxe as denúncias à tona, também foi periciado para averiguar mensagens que ela encaminhou ao Arnaldo Sérgio Patrício relatando a situação caótica.
Os membros da diretoria do hospital serão ouvidos por último. A Câmara Municipal de Cuiabá e a Assembleia Legislativa também anunciaram que iriam apurar a situação diante da gravidade dos relatos feitos pela técnica de enfermagem.
FONTE FOLHA MAX
