ARTIGO- Desafios da Covid-19: A recorrência ou reinfecção são possíveis?
Com o avanço da pandemia da síndrome respiratória aguda denominada Covid-19, associada ao vírus SARS-CoV-2, e a continuidade dos casos ao longo do tempo, novos achados têm desafiado os pesquisadores quanto aos casos de possível recorrência ou reinfecção. Diversos pesquisadores, em diferentes países, têm relatado um número de casos, mesmo que minoritário, apresentando novos sintomas de Covid-19 e com testes laboratoriais de RT-PCR positivos para SARS-CoV-2 em indivíduos previamente infectados e doentes em meses anteriores. Tais observações ampliam as preocupações quanto ao possível controle da doença por alguma estratégia terapêutica, como através da profilaxia vacinal.
Estudo recente sobre reinfecção de Covid-19
Kang et al. (2020) discutem, em publicação recente baseada em revisão de estudos experimentais, as possíveis respostas aos diversos questionamentos atuais envolvendo os pacientes com histórico de Covid-19 que apresentam novos resultados positivos em RT-PCR para SRS-CoV-2 (“reteste”) após terem sido considerados previamente curados. Algumas dessas conclusões observadas incluem:
A acurácia do exame de RT-PCR é diretamente relacionada com o método de coleta, transporte, armazenamento e processamento do espécime clínico, e resultados falso negativos podem ocorrer em caso de falha em uma das etapas desse processo;
Os pacientes podem não ter sido devidamente avaliados quanto aos critérios de cura ou não apresentar critérios adequados para alta hospitalar;
Fragmentos de partículas virais não viáveis e/ou não infectantes podem permanecer no organismo humano por períodos longos (aproximadamente 6 semanas);
Pacientes com “reteste” positivo não apresentaram contactantes que evoluíram para Covid-19, o que pode significar baixo ou nulo potencial transmissor;
Pacientes com “reteste” positivo não apresentaram partículas virais infectantes para culturas de células;
As evidências obtidas em estudos de resposta humoral e celular indicam que, mesmo na ausência de soroconversão, há produção de células T de memória com resposta efetiva específica ao SARS-CoV-2, o que minimiza os riscos de reinfecção;
Os possíveis diagnósticos diferenciais devem ser avaliados em todos esses casos suspeitos de recorrência ou reinfecção para melhor avaliação dos mecanismos envolvidos;
Deve-se diferenciar as complicações secundárias dos quadros sugestivos de novos episódios de Covid-19.
Outros estudos sobre reinfecção
Por outro lado e de forma detalhada e consistente, Batisse et al. (2020) apresentam a descrição de 11 casos de pacientes com novo episódio de sintomas de Covid-19 e “reteste” positivo na França, sendo descritos como recorrência, geralmente após 21 dias desde o início dos primeiros sintomas e com intervalo livre de sintomas e alta dos cuidados intensivos. Alguns dos casos (7/11, mediana de idade de 73 anos e com comorbidades) evoluíram com nova necessidade de hospitalização para oxigenioterapia e tratamento medicamentoso na recorrência, sendo que três foram a óbito. Nenhum deles apresentou diagnóstico diferencial compatível com outras patologias associadas ou exclusivas. A sorologia disponível para 9/11 pacientes investigados foi positiva em 6 deles.
Adicionalmente, o cultivo de SARS-CoV-2 em cultura de células (Vero E6), a partir do swab nasofaríngeo de dois desses pacientes, apresentou resultados positivos com efeitos citopáticos típicos e subsequente confirmação por sequenciamento genômico como pertencente a linhagem europeia B2. A recorrência ou reinfecção não pode ser definida nessa série de casos, especialmente pois o critério de cura adotado tinha sido apenas baseado na observação clínica já que métodos laboratoriais não eram usados como recomendações pelos consensos franceses.
Casos brasileiros de reinfecção
No Brasil têm sido descritos alguns casos que sugerem a existência de recorrência/reinfecção e alguns estudos descritivos estão em vias de publicação para a discussão científica. Dessa forma, há sustentação da possível ocorrência desses fenômenos, mas estudos adicionais com abordagem metodológica laboratorial precisa ainda são necessários para obtermos melhores conclusões.
Rafael Duarte - M.D., PhD. ⦁ Médico ⦁ Microbiólogo ⦁ Professor Associado / Lab. Micobactérias, Depto. Microbiologia Médica, Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, Centro de Ciências da Saúde – Universidade Federal do Rio de Janeiro
FONTE PEB MED
