ARTIGO: O peso dos sinais e sintomas pós-Covid-19

 

Após mais de 6 meses desde o início da recente pandemia associada ao vírus SARS-CoV-2, com milhões de indivíduos infectados, casos graves e alto número de óbitos em diversos países, atualmente colecionamos inúmeros achados e descobertas descritos sobre a Covid-19. Os relatos e detalhamentos sobre os diferentes casos têm auxiliado imensamente a melhor compreensão da epidemiologia, fisiopatologia, tratamento, diagnóstico, e sobre os efeitos pós-Covid-19.

Curiosamente, o que já era considerado um problema de Saúde Pública, a temida infecção aguda por SARS-CoV-2 pode ainda resultar em um quadro persistente de sinais e sintomas em uma proporção dos doentes acometidos. Alguns pesquisadores tem contribuído para descrever as patologias pós-Covid-19 que têm sido observadas em diversas partes do mundo e visam atentar para os cuidados extra que devemos ter em pacientes acometidos.


Achados de estudos
Carfi e colaboradores (2020) reuniram os achados observados em pacientes hospitalizados que apresentaram critérios de alta da Organização Mundial da Saúde para Covid-19 de abril a maio de 2020: ausência de febre por 3 dias consecutivos, melhora dos sintomas, e 2 testes negativos para a síndrome do desconforto respiratório agudo. Dentre os 143 pacientes que foram incluídos, 72,7% apresentaram evidência de pneumonia intersticial, com hospitalização média de 13,5 dias, e 7 pacientes foram submetidos a ventilação invasiva.

No momento do atendimento ambulatorial após alta, somente 18 (12,6%) dos pacientes não apresentavam sintomas relacionados à infecção por SARS-CoV-2, enquanto 87,4% dos doentes descreveram sintomas presentes. Trinta e dois por cento apresentavam 1 a 2 sintomas, e 55% exibiam 3 ou mais sintomas. Dentre os principais sintomas descritos incluem fadiga (53,1%), dispneia (43,4%), artralgia (27,3%) e dor torácica (21,7%). Outros sinais ou sintomas incluem anosmia, rinite, síndrome sicca, olhos vermelhos, disgeusia, cefaleia, expectoração, hiporexia, odinofagia, vertigem, mialgia e diarreia. A piora da qualidade de vida foi descrita por 44,1% dos pacientes.

Garrigues e colaboradores (2020) reviram os dados clínicos de 279 pacientes hospitalizados por Covid-19 no Beajoun Hospital, em Clichy, França, e entrevistaram 120 pacientes uma média de 110 dias desde a alta. Dentre os sintomas persistentes, foram mais frequentemente descritos a fadiga (55%), dispneia (42%), perda de memória (34%), distúrbios do sono (30,8%), desconcentração (28%), perda de cabelo (telogen effluvium, 20%), e outros, independente dos quadros moderados a graves. Dentre os 56 pacientes com atividades de trabalho (46,7%) previamente à infecção por SARS-CoV-2, cerca de 69% desses retornaram ao trabalho. E entre os 39 pacientes com atividade esportiva regular antes da hospitalização, em torno de 28 (71,8%) foram capazes de retornar aos exercícios físicos, mas de forma leve para 18 deles.


Distúrbios psiquiátricos
Outra preocupação no acompanhamento médico dos pacientes pós-Covid-19 incluem os distúrbios psiquiátricos, tema pouco discutido até o momento. Porém, alguns estudos já têm descrito a ocorrência de delirium transitório (com ou sem hipoxia) e outras manifestações neurológicas. Lim e colaboradores (2020) descrevem o caso de uma paciente de 55 anos sem transtornos psiquiátricos prévios que evoluiu com delirium inicial pós-Covid-19 seguido de sintomas psicóticos persistentes e floridos com delírios persecutórios, alucinações visuais e auditivas e síndrome de Capgras mesmo na ausência de hipoxia. Tal quadro foi caracterizado por aumento do fator de necrose tumoral alfa (TNF-alfa) e apresentou duração de 40 dias. A paciente foi extensivamente investigada quanto a outras alterações e patologias, sem outras possíveis alterações detectadas.

Mensagem final
Tais publicações alertam para a possível cronicidade de sintomas após a infecção por SARS-CoV-2, que podem exigir cuidados específicos na reabilitação, e o possível surgimento de novos quadros, incluindo psiquiátricos após a alta. A vigilância médica e o acompanhamento a longo prazo são importantes para o melhor cuidado com as inúmeras vítimas na pandemia atual.


Rafael Duarte - M.D., PhD. ⦁ Médico ⦁ Microbiólogo ⦁ Professor Associado / Lab. Micobactérias, Depto. Microbiologia Médica, Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, Centro de Ciências da Saúde – Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE PEBMED